Este é um tema enorme! É possível escrever um livro longo sobre isto, e várias pessoas já o fizeram (procura "unicode book" na Amazon para ver alguns exemplos).
Lidar com carateres nos computadores era muito mais simples nas décadas anteriores, quando os programadores assumiam que o inglês era a única língua importante. Então: 26 letras, maiúsculas e minúsculas, 10 algarismos, vários sinais de pontuação, mais um código (0x07) para fazer soar uma campainha, e tudo cabia em 7 bits: o conjunto de carateres ASCII.
Naturalmente, as pessoas começaram a perguntar o que fazer com à, ä e Ł, depois outras pessoas começaram a perguntar sobre ऄ, ஹ e ญ, e os jovens queriam emojis 😱. O que fazer?
Para encurtar a história, muitas pessoas inteligentes e pacientes tiveram de fazer parte de comités durante anos, a trabalhar nos detalhes do conjunto de carateres Unicode e de codificações como UTF-8, e muito software precisou de uma reescrita muito complicada. Além disso, foram introduzidos muitos bugs novos.
Para evitar que tudo se quebrasse, o desenho do Unicode/UTF-8 garante que os primeiros 127 códigos são idênticos ao ASCII (até a campainha).
As linguagens concebidas depois de cerca de 2005 têm a enorme vantagem de já existir um padrão Unicode razoavelmente estável.
A Julia (lançada em 2012) pôde partir do princípio de que tudo seria Unicode: carateres, strings, nomes de variáveis e de funções, operadores matemáticos...
A citar o manual, "a Julia torna simples e eficiente lidar com texto ASCII simples, e lidar com Unicode é tão simples e eficiente quanto possível." Repara no "quanto possível", é uma parte importante da afirmação.
Os literais de caráter escrevem-se entre plicas, e são distintos das strings escritas entre aspas.
Isto é óbvio para quem vem do mundo do C/C++, mas pode ser confuso para programadores de Python e Javascript.
julia> a = 'a' # Roman alphabet
'a': ASCII/Unicode U+0061 (category Ll: Letter, lowercase)
julia> typeof(a)
Char
julia> jha = 'झ' # Devanagari alphabet
'झ': Unicode U+091D (category Lo: Letter, other)
julia> typeof(jha)
Char
julia> '❤' # heart emoji
'❤': Unicode U+2764 (category So: Symbol, other)
Podemos ver pelos exemplos que o tipo é Char, e a Julia tem mais informações sobre a categoria do caráter.
A olhar com mais atenção, parece que estes carateres podem ser representados por 4 dígitos hexadecimais. O conjunto de carateres completo precisa de até 6 dígitos hexadecimais.
Estes números chamam-se "pontos de código" e vão atualmente de U+0000 a U+10FFFF.
Aparecem no REPL, mas dentro do código usa codepoints() para os obter.
Converter entre Char e Int é simples:
julia> Int('a')
97
julia> Char(97)
'a': ASCII/Unicode U+0061 (category Ll: Letter, lowercase)
O compilador permite algumas formas de aritmética de inteiros com Chars:
julia> 'b' - 'a' # interval, in alphabetic order
1
julia> 'b' + 'a'
ERROR: MethodError: no method matching +(::Char, ::Char)
julia> 'a' + 5
'f': ASCII/Unicode U+0066 (category Ll: Letter, lowercase)
julia> 'f' + ('A' - 'a') # same as `uppercase('f')`
'F': ASCII/Unicode U+0046 (category Lu: Letter, uppercase)
Um subconjunto das funções de manipulação de strings também funciona com Char como entrada.
uppercase() e lowercase().isuppercase() e islowercase().isletter(), abrange muitos alfabetosisdigit(), testa estritamente 0:9isnumeric(), mais amplo do que isdigit, logo devolve true para ¾ e vários sistemas de escrita não europeusisxdigit(), algarismos hexadecimaisisascii(), caráter anterior ao Unicodeispunct(), pontuaçãoisspace(), qualquer caráter de espaço em brancoisprint(), caráteres imprimíveis (o oposto é iscntrl())islowercase('A') # false
uppercase('γ') # 'Γ': Unicode U+0393 (category Lu: Letter, uppercase)
ispunct('@') # true
isdigit('A') # false
isxdigit('A') # true
Para verificar se um caráter está presente numa string, temos o in.
Repara que isto é diferente de substrings:
# char search
julia> 'a' ∈ "xabcahliazlnkiw"
true
# substring search
julia> "a" ∈ "xabcahliazlnkiw"
use occursin(needle, haystack) for string containment
Além disso, as expressões regulares (o tema de outro Conceito) permitem pesquisas e manipulações poderosas.
Para converter uma string num vetor de Char, podemos usar collect().
Para converter um vetor de Char numa string, existe o construtor String().
julia> s = "abcde"
"abcde"
julia> cv = collect(s)
5-element Vector{Char}:
'a': ASCII/Unicode U+0061 (category Ll: Letter, lowercase)
'b': ASCII/Unicode U+0062 (category Ll: Letter, lowercase)
'c': ASCII/Unicode U+0063 (category Ll: Letter, lowercase)
'd': ASCII/Unicode U+0064 (category Ll: Letter, lowercase)
'e': ASCII/Unicode U+0065 (category Ll: Letter, lowercase)
julia> String(cv)
"abcde"
Isto funciona com quaisquer carateres, não apenas com ASCII.
julia> collect("❤,😱")
3-element Vector{Char}:
'❤': Unicode U+2764 (category So: Symbol, other)
',': ASCII/Unicode U+002C (category Po: Punctuation, other)
'😱': Unicode U+1F631 (category So: Symbol, other)
Repara que o construtor String() opera sobre um vetor.
Para converter um único Char numa string de um caráter, a função é string(), com s minúsculo.
julia> string('a')
"a"
Tudo o que vimos até agora neste documento parece relativamente simples, por isso será que há realmente pouco com que nos preocuparmos?
Infelizmente, isto é demasiado otimista!
Uma complicação vem da necessidade de "até" 6 algarismos hexadecimais por ponto de código. Isto significa que carateres diferentes precisam de diferentes quantidades de espaço em memória quando codificados em UTF-8.
Um byte só consegue armazenar números (sem sinal) até 255, dois algarismos hexadecimais, por isso o UTF-8 usa um número variável de bytes (1 a 4) para armazenar um Char.
Estas chamam-se "unidades de código", e a função ncodeunits() devolve o número necessário para um determinado caráter.
julia> codepoint(jha) # jha 'झ' is defined in an earlier example
0x0000091d
julia> ncodeunits(jha)
3
julia> ncodeunits('a') # ASCII character
1
julia> ncodeunits('😱') # emoji
4
Além disso, nem tudo o que pode ser mostrado no ecrã tem o seu próprio ponto de código único. Alguns carateres visualmente distintos são considerados derivados de outros, por isso o Unicode trata-os como um caráter principal mais um modificador.